Meu ex me infectou e ainda me chamou de vagabunda

Pessoal, hoje o papo é sério. Vale a pena ler…

 

“ A única pessoa que eu devo confiar é em mim mesma”, essa foi a frase que Julia* disse, ao ser questionada sobre o que a Aids ensinou para ela.

Seu ressentimento é direcionado a um ex-namorado, que tinha o vírus da Aids, mas nunca disse nada para ela. Namoraram, terminaram, o tempo passou e, numa consulta de rotina, seu ginecologista pediu o exame anti HIV.  Deu positivo. Ela tinha 25 anos.

“Na hora fiquei assustada, porque não conhecia nada sobre a doença. No mesmo dia eu procurei o hospital Emílio Ribas e lá conversei com médicos e psicólogos. Daí, vi que não era o fim do mundo.

Logo que descobri contei para a minha mãe, meus irmãos e um namorado da época. Fui muito bem acolhida pela minha família, exceto pelo meu irmão (37), que mora comigo e tem preconceitos até hoje. Aliás, ele acha que se eu dormir na cama dele, no dia seguinte, ele vai ter a doença – é um idiota, só rindo mesmo”, conta.

 

Nunca tive uma vida sexual tão ativa

Desde que soube do resultado, tudo o que Julia queria saber era como foi infectada. “Nunca fui uma pessoa de vida sexual tão ativa, então conversei com os caras que eu tinha transado, todos foram comigo fazer exames. O único que se negou foi um dos ex, então, na época, conclui que tinha sido ele. Confirmei isso algum tempo depois. Jamais desconfiei dele ter a doença, mas hoje eu desconfiaria, porque ele tinha muita azia, coisas que eu também sinto às vezes, isso não quer dizer que todos os casos sejam assim. Tentei falar com ele, mas não quis me ouvir. Me chamou de vagabunda e tudo mais. Ok, é vida que segue”.

E a vida seguiu, Julia teve outros namorados e todos sabiam do seu diagnóstico. “Sempre contei logo de cara. Apenas um rapaz se afastou de mim e um outro, por quem me apaixonei, mas o preconceito falou mais alto. É bem o tipo de gente que não te conhece e te julga, sabe? Melhor assim, prefiro essas pessoas bem longe de mim”, desabafa.

Mas ela não ficou sozinha por muito tempo, logo conheceu Paulo*, pai do seu filho. “Ele sempre soube da doença, pois antes de se tornar meu namorado era meu amigo. Já a família dele nunca desconfiou. Moramos um tempo juntos e nos separamos quando meu filho, hoje com três anos, tinha um ano e 10 meses”.

 

Mesmo sabendo do vírus, ele nunca quis usar camisinha

 “Minha maior preocupação era infectar alguém. A primeira coisa que passou pela minha cabeça logo que eu descobri foi que jamais passaria isso pra ninguém. Mas o Paulo dizia que o sangue dele era forte. No começo isso me incomodava um pouco, mas passou. Tinha medo de passar o vírus, mas estava com a consciência tranquila, porque ele não se prevenia por vontade própria. Ele não foi infectado!”, relata. Vale ressaltar o alerta de especialistas sobre uso do preservativo para uma relação sexual segura.

 

Ufa, meu filho nasceu saudável!

“Nunca pensávamos na doença. Só fui pensar mesmo quando engravidei. Aliás, foi só aí que passei a tomar remédio. Tem gente que descobre porque já está passando mal e o vírus já afetou o sistema imunológico. Como descobri num exame de rotina e o vírus não afetou meu sistema imunológico, ou seja, não se manifestou, não tomava nada. Só que para não passar para o bebê, tive que começar a tomar remédio e continuo tomando, porque depois que começa não se pode parar. O bom disso tudo é que meu filho nasceu uma criança saudável e hoje é muito feliz. Ele só tem que passar por acompanhamento até os quatro anos, mas já teve alta do vírus. Meu sonho agora é vê-lo crescer e um dia ser avó!”.

 

Tem muita gente querendo passar o vírus por aí, cuidado!

“Faço parte de um grupo de pesquisa no Hospital das Clínicas. Frequentei muita roda de conversa. O que percebi é que 99% das pessoas infectadas fazem de tudo para passar para alguém, da mesma forma que alguém passou pra elas. É triste, mas é uma realidade. Então, por isso que eu digo sempre que a única pessoa que a gente deve confiar é na gente!”, finaliza Julia.

 

Texto: Claudia Rato

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade da entrevistada

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